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Durante quinze pasmados anos, com algumas ausências temporárias nos quatro primeiros, apanhei autocarro na paragem do Bessa. Como companhia tinha, sobretudo, empregadas domésticas e alunos da Clara de Resende e da Fontes Pereira de Melo. Das conversas das primeiras ficava a saber da intimidade das casas onde trabalhavam, espécie de vingança das cavaqueiras tidas pelas ‘minha patroa’ e 'ela'- variações por que são conhecidas as donas das casas em ambiente STCP -, as quais quando mais velhas também se locomovem de autocarro. Muito polidas demonstram prazer imenso em zurzir na burrice e incompetência do pessoal que as serve, não em público mas no regaço do seu lar, minuciosamente exposto pelas servas quando não distraídas a rebentar balões nos telemóveis. A justiça divina fazia-se ali mesmo e uma coisa é certa: a luta de classes vivia apartada e distante da realidade alternativa dos crianços (adolescentes, em rigor) que coabitavam o transporte público.
Dos mais novos espantava-me sobretudo a total indiferença de substância entre realidade e ficção. Diariamente me debatia em silêncio atenta a miúdos que tinham várias vidas, forças invisíveis, likes, poderes naturais e sobre-humanos indistintos dos sumos que bebiam, das bolachas que mordiam, das biqueiras, das palmadas nas costas, dos kisses e amassos. Várias vezes dei por mim baralhada, tal era a indistinção vocabular empregue nas diversas situações, ficando na dúvida se aquela paixão e enredo de que falavam rapazes e raparigas era referente a algum colega ausente ou mesmo um deles, se a personagem de animação, protagonista de algum jogo virtual, ou músico de banda eleita. Se aquele motivo de irritação e guerra declarada era fruto de alguma zanga física e palpável ou decorrente de uma congénere caça ao Pokémon. À distância já vejo a amálgama do discurso - quanto mais palavrosa e alheada mais enaltecida por alguns pais e professores vergados às correntes de pedagogia que enaltecem o mundo fora dos modelos convencionais – um traço distintivo dos meninos de hoje portadores de generosas doses de criatividade e riquíssimo vocabulário facebookiónamo, ao contrário dos miúdos dos tempos bafientos de outrora, pobres coitados de parco vocabulário, chamando os bois pelos nomes ou usando gíria anacrónica. O que vi foi a mescla sempre conforme à norma virtual de tolerância pela diferença e de cenário, acções e sentimentos efabulados. O arrazoado rápido e fluente de miúdos maioritariamente mais desinibidos do que os das gerações precedentes, porque cheios de repentes informativos e improvisos simplificadores que desenham num ápice tudo quanto precisam saber para se desenrascarem não só enquanto estudantes, mas enquanto miúdos saídos há pouco da puberdade. Massa indistinta de informação com imaginário muito longínquo do que outrora irmanava as estirpes juvenis privilegiadas – proveniente dos livros, das viagens, do cinema, da pintura, do rádio, da música e, finalmente, da televisão. O espectro do mundo da fantasia metamorfoseou-se numa coisa distante: os livros, as viagens etc, depois de se democratizarem, caíram no sofá do IKEA e passaram a servir de objecto banal de culto, tal qual as sapatilhas (ténis para os possidónios) Adidas, e a fantasia passou para o plano puramente virtual e alternativo. O desconhecimento dos diferentes cantos do planeta e o exotismo deixaram de existir com a massificação das viagens. Na aparência, mas isso hoje pouco interessa. O desconhecido, a fantasia, o mistério, que sempre há-de atrair as camadas juvenis, está hoje acessível no digital. É lá que o real se desenrola.
A mim, que passei a vida toda a devanear o impossível e melhor ou pior integrei o mundo da imaginação e fantasia nos meus dias, espanta-me mais ainda a falta de perplexidade com que reagem os muitos filhos da televisão, adolescentes dos idos anos 70 e 80, que sonharam essencialmente fazer dinheiro, ter uma casa xpto, casar e ter filhos. E que para isso trabalharam de modo pragmático, obtendo natural e merecida recompensa. Admira-me que não se espantem ao deparar-se com esta nova geração – a dos seus filhos. Daqui do alheamento da idade da pedra onde vivo, fico a imaginar que linguagem se fala entre pais e filhos. E chego à conclusão que a ponte se estabelece, por exemplo, via HBO e Netflix, das quais tenho eco mas não subscrevo e suponho enormes legendas ou elos intergeracionais.
O mundo efabulado passou a ser o real. Vale apenas a mãe natureza, indiferente aos delírios da humanidade e pronta a lembrar que para a sobrevivência e perpectuação da espécie humana precisamos de abrigo, dormir, comer e acasalar. E é isso que mais fará mover os mais novos, como fez mover as gerações precedentes. O que nos vale é que o universo é uma engrenagem muito bem feita e, até ver, à prova de muitos dos desvarios humanos.