A abanar os ombros na janela única sobre a praça por desenhar, capital do país por inventar, emerge. Acima do parapeito, o improvável rendilhado de madeira pintado de verde-escuro. Lá dentro pousado no soalho de madeira carcomida e há décadas sem o sustento da cera com que outrora era esfregado duas vezes ao ano, o abrigo feito de cama, três cadeiras, a de fórmica a fazer de apoio ao travesseiro, a de madeira de cabeceira aleatória na mesa de contraplacado redonda e manca, na qual jaz o prato de comida ressequida do jantar de ontem e talheres a darem as seis e meia. A única veleidade de pretensão naquela casa. Não quis ficar pela regra das três e um quarto em que bem foi educada e num espasmo de piroseira ainda aos vinte achou-se vedeta da etiqueta do mau gosto. Na perna mais curta da mesa um maço de tabaco português suave bem dobrado. O calço de quarenta anos. Ao lado da terceira cadeira, de praia, o antigo Grundig pousado na estante baixa e larga, junto do telefone de baquelite creme, que há décadas deixou de tocar, sobre as páginas amarelas de 1988, soa a razão única do sacudir de corpo.
Além da que dá para os três lanços de escadas, duas portas: a da casa de banho com toda a canalização à vista, o chuveiro sobre a base de cimento vermelho e a cortina translucida agarrada com um atilho pela cintura, e a outra para o cubículo interior, no qual a placa de dois bicos faz as vezes de fogão e a torneira sobre a bacia de plástico azul, de lava-loiça. Em cima a prateleira alberga dois copos, uma caneca, dois pires mais pequenos, descasados de almoçadeira e xícara de café, encastelados num prato igual ao da mesa, ainda mais esbotenado. Tudo do chinês. Ao alto um espeto onde repousa o papel de cozinha que faz as vezes de guardanapo. De resto, pouco mais do que sal, óleo e açúcar. Em cima o tacho pequeno, a sertã e a chaleira eléctrica.
Na praça há muito nada se passa. Mas a dona dos ombros meneados bate o pé e cumprimenta todos os que não existem logo pela manhã. Quer saber dos últimos reveses e alegrias, antes mesmo do almoço. Desce uma vez por semana, percorre quatrocentos metros solitários para entrar na mercearia, despida de donos e clientes. Ninguém. Paga com dinheiro que não tem. E no regresso enfia no saco plástico os resquícios ressequidos dos dias seguintes e dá razão ao luxo de ser dona de uma janela e duas portas, além da que dá para as escadas.