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Mais um texto sem predefinições. E o entremeio? As viagens não foram assim tantas, nem por sombras. Por cá as lutas normais. Trabalho essencialmente. Os primeiros 10 anos foram de inconstância, a saltar de poiso em poiso. A ver como funcionava mal o país. Inconformada, nos primeiros anos, batia a porta. Depois já não era inconformada, já saía abalada como um autómato adoentado. Em vez de eternas injustiças com que oiço tantos encherem a boca para se dizerem prejudicados, melhores ou mais capazes, vi sobretudo incompreensão. Falta de solidariedade entre parceiros. Falta de brio no trabalhar para um resultado comum. Brio, essa palavra tida como uma menoridade num país de chico-espertos. O país que se diz solidário e capaz de grandes gestos de vizinhança e apto de criar uma rede informal de generosidade com quem mais precisa, quando chega o momento de trabalhar é incapaz de perceber que faz parte da engrenagem e é preciso que conheça as regras e respeite o todo. Cada trabalhador por si, cada serviço ou departamento por si e o do lado, o outro sempre visto como fonte de todos os problemas, a menos que por razões que nada tem a ver com a racionalidade da actividade, prevaleçam afinidades ou simpatias. Desonestidade total traduzida na incapacidade de assumir os próprios erros. Sempre de dedo em riste a apontar as falhas existentes ou não do outro e dramática mão no peito com justificações miseráveis ou então puro escárnio para os próprios erros, quando era inevitável assumi-los. País onde se estranha ou se acha ingénuo uma comunicação banal com a indicação: por erro meu/nosso, tal não funcionou. Peço/pedimos desculpa. Segue correcção, seguindo a máquina oleada. Só quem não faz, não comete erros. Não, neste país, cada erro dá azo a um romance, a quezílias, ao recrudescimento de ressentimentos até à fundação. E o mais certo é que quem leia isto, diga: é tal e qual, e se lembre de meia dúzia de situações, colegas ou chefias, mas seja incapaz de se lembrar das calhandrices e pulhices com que escondeu erros que prejudicaram outros. Pode ser um dos muitos sábios que por aí perora sobre a injustiça e a mediocridade do País. É muito provável que o seja. Um desses sempre à espreita de deslizes de terceiros para poder fazer intriga. Um desses que se diz contracorrente, mas afinal capaz de fáceis juízos de valor e ideias preconcebidas. Dos que se diz descrente no homem, ao mesmo tempo que se socorre de rótulos extraídos dos títulos dos jornais e vai refazendo a história, substituindo velhos por novos lugares-comuns, mais apelativos para o restrito público eleito, que há-de propalar às gerações futuras a nova versão da realidade.
Seguiram-se 14 anos de maior paz. Ao sossegar de ânimos trazido pelo amadurecimento e natural conformismo, foi-se juntando a sorte de começar a aparecer um grupo de pessoas mais capaz de compreender que a remar para o mesmo lado se vai mais longe. Os problemas não deixam de existir mas são mais fáceis de superar. Não quer dizer que não exista ali ou acolá um exemplar com os velhos vícios. Gente normalmente pouco dotada, mas muito convencida das suas capacidades, azeda e desconfiada dos propósitos dos outros. Mas se o todo não se comportar assim, não há como medrar. As rotinas foram-se impondo naturalmente e a vida tornou-se mais fácil. A ver vamos como será o futuro.