Hoje de tarde irás a Gaia à casa onde viveste a adolescência e juventude (odeias esta palavra, mas não te sujeitas aos sinónimos; essa implicância de mau feitio com algumas palavras deveria originar imediata busca da que melhor se aplica, mas por vezes demoras anos a encontrá-la), no intuito de dar uma mãozinha a prepará-la para a geração seguinte, já independente – e o gozo que te dá a independência deles; essas sim são verdadeiras vitórias.
Também por isso, mas sobretudo por te confrontares com a tua própria imagem concluis com a sensação: estou velha. É engraçado que manteres-te normalmente afastada da atenção aos espelhos faz-te um tanto desfasada das marcas do tempo em ti. Nesse doce engodo, vês-te mais novinha e atraente do que és. E logo tens necessidade de recordar as várias pessoas que conheceste que se achavam perigosa e ridiculamente menininhas(os) quando aos olhos da realidade estavam tão longe de o ser e sequer parecer. Ora, esta vontade de encontro permanente com a verdade, faz-te consciente, faz-te aceitar a realidade como ela é e não sofrer por aí além. É evidente que gostavas de ser da forma como te vês no doce enlevo dos devaneios, sem confrontações realísticas com o espelho, mas tal com nos traços de carácter e qualidades mentais, é imperativo não disfarçares o que és, e aceitá-lo sem paninhos quentes, esfregas tontas no ego ou esticanços de bicos de pés. Porquê? Por que não (ainda um dia hás-de começar a saber distinguir o porque do por que, apesar das dezenas de vezes que consultaste o Ciberdúvidas) ser mais dócil com as imperfeições, abstraindo delas ou escondendo-as, como é prática dominante? Por escolha. Por não te fazer sentido. A tudo tentas responder com lógica (às tantas, da batata) e adequação à realidade. É claro que há aqui fragilidades, como a chamada de atenção para as ideias do gosto não se discutir e a tolerância devida às imperfeições da vaidade e da mentira. Têm razão, concedes. Mas retorques: porque não ser verdadeiramente tolerante com a própria imperfeição física? Isso sim, é ir directo à questão, em vez de rodeios e meneios para afagar egos inconscientes de si e da sua decrepitude.
Enfim, estás velha e não és menos feliz por isso. Mas também é verdade que: amanhã poderás estar mais nova e arranjar lógica nisso – chama-se retórica -, o pedaço que acabas de escrever tenha incongruências e por preguiça não as sanes.