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16/03/2023

A Guerra

(continuação)


Hoje também já dormiste um pouco depois do jantar para conseguir aguentar o pedal. Ouviste umas tantas vezes Curtis Stigers e Katie Melua, que esta tarde encontraste em Estugarda – és tão viajada no YouTube. Curtis Stigers, uma descoberta própria de há anos, tem aquele quê desajeitado de quem se entrega, o gingar estranho de quem pisa uvas e não cola nas imagens construídas ou artificiais. Gostas da bonita voz projectada ao natural – sai sem grande esforço - e de o ouvir no saxofone. Katie Melua foi emprestada já este ano por uma colega de trabalho e além de uma voz linda, toca guitarra e crês já a ter visto ao piano.


Muitas vezes deste por ti a pensar: que sorte conseguir tocar um instrumento. Que fortuna poder expressar sentimentos através de uma linguagem universal. Tens uma espécie de ciuminho (ah, heresia, um diminutivo, coisa de quem não sabe escrever, credo) saudável dos artistas que admiras, como se quisesses ser capaz das proezas dos músicos e pintores. Em miúda quando ias para a Biblioteca Municipal de Gaia ler o que não interessava ao percurso académico, num livro de astrologia, leste que estarias destinada a ligares-te afectivamente a artistas. Uma espécie de vocação, completar-se-iam assim. Talvez por isso tenhas tropeçado com estenderete no Nuno. Sem estardalhaço, sem exibicionismo, desenhava tão bem, e lá vai ouvindo, coleccionando e aprendendo música e tocando piano e teclado quase todos os dias para esta plateia dedicada que és tu – e vais amealhando momentos afortunados numa casa longe de perfeita, mas onde reina a confiança e cumplicidade e nunca vingará a grosseria e a ridícula presunção de quem não respeita e se acha acima dos demais. É o que interessa. Entretanto não sendo tu capaz de desenhar, pintar ou tocar um instrumento músical, resta-te aprender a escrever. Lá está, a mais democrática das artes, por não depender de grande investimento material, nem espiritual.


E a guerra? Onde fica? Ainda não vais directa para ante-estreia da dita nos jornais que variam a entrega de factos ao domicílio entre momentos quase in extremis de escalada do conflito para fora das fronteiras da Ucrânia e o repisar das empolgações ideológicas que antecipaste na Ana Paula. O mundo está sensível, o país está sensível, como era previsível que estivessem. Vais deixar a guerra propriamente dita para depois e dizer que a polarização ou radicalização decorre do desfasamento do espaço público face à realidade.


Durante anos, décadas, engendrou-se inverosímil mundo fabulado no discurso da comunicação social – à imagem e para sustento de quem ascendia sem esforço nem especial mérito aos megafones da sociedade. Tudo decorria tranquilamente, até porque enquanto isso sucedia, a população ascendia ela própria a patamares de conforto económico e a uma qualidade de vida nunca antes vista. E quando quase tudo corre bem a verdade fica adormecida no doce leito das facilidades. Não se vêem as desigualdades e injustiças diluídas no movimento de progresso que confere aparente imagem de bem-estar comum. Ficam debaixo do tapete, fazem parte do indizível no espaço público, do proibido.


Ora, neste contexto, qualquer abanão nas condições materiais da população – agora genericamente habituada a níveis de conforto muito distantes da realidade dos pais e avós – põe a nu o logro, a ficção da justiça no acesso ao bem-estar. E a mais recente inversão do cenário - com regressão na qualidade de vida e baralhação dos cérebros por efeito do desajuste no rápido desenvolvimento das inovações tecnológicas, na inabilidade para as usar de forma eficiente e na susceptibilidade do seu uso malicioso -, desnuda gentes muito mais exigentes e reivindicativas, esquecidas do passado, cada vez mais afogado nas catadupas de informação e entretenimento vendidas pela comunicação social e redes sociais. A memória curta convém ao discurso dominante. Vinga gente cada vez mais individualista - longe vão os tempos em que se lutava por um país melhor, hoje luta-se por um lugar para si próprio, amigos ou classe profissional cada vez mais perto do sol, mais exclusivo, mais radioso. Ambições incomportáveis para o todo, em que ninguém parece estar interessado, tanta é a ambição individual ou tribal. Aspirações quantas vezes desacompanhadas de empenho próprio de produtividade e em desrespeito pelo esforço dos outros. Quando não desprezo ou ódio propriamente dito pelo outro.


Ah, a solidariedade, onde vai ela? Palavra antiga e em desuso. E o papel da comunicação social nisto? Dar eco à intriga política disfarçada de luta pela melhoria das condições de trabalho e vida – notícias, artigos e reportagens por encomenda de interesses corporativos. O caricato é que o faz no intervalo de dar eco aos mais selvagens interesses liberais ou de sacrificar um qualquer sector da sociedade malquisto por uma qualquer vaga noticiosa, ou de beatificar indivíduos ou grupos sem especial mérito. É o desnorte total. Os megafones dados a quem berra mais alto na defesa dos seus interesses egoístas, sem qualquer critério de justiça e bom senso. Tudo abana, como previsível.


(há-de continuar)