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15/03/2023

A Guerra

Altamente desaconselhável. Assim defines o post que agora começas e cujo teor ainda desconheces, mas prevês pouco dotado da sensatez e da reserva desejáveis.


Acabas de limpar pela segunda vez hoje a caixa de areia do gato e de te recordares da parede de tijolos do tio F., o tal jesuíta primo da tua avó que alertava para a necessidade de manter as almas ocupadas, atentos os perigos do ócio. Conselhos em desuso nos tempos modernos que preconizam o homem inteligente e capaz de pensar sobre o mundo que o cerca de molde a não se conformar com o destino que lhe coube. Hoje defende-se uma espécie de emancipação humana, sem critério. Tudo se questiona em função de sucessivas razões ou interesses sectários, que se desagregam uns aos outros. O mundo parece desconhecer a seriedade da figura do conflito de interesses ou conflito de direitos. Se é verdade que se trabalha em loop, também se aproveita para pensar nos tempos livres em loop. Paraste cinco minutos para despejar a areia do gato, lavar a caixa e ir lá em baixo deitar o lixo no contentor. Afinal era preciso desfazeres-te mesmo da areia, dado o cheiro não permitir continuasses a escrever. Regressando. É essencial manter a cabeça ocupada com tarefas manuais ou mecânicas para bem da saúde mental. É preciso haver uma certa harmonia criada pelo esforço de cada um no seu próprio mundo para encontrar sentido na vida. Parecerá isto uma balela moralista? Seja.


Mas onde estaria o desaconselhável? Nisto: na admissão de momentos psicóticos no passado associados a cenários de guerra. Não tens hipótese de sofrer de traumas de guerra, visto teres saído ainda bebé do país onde nasceste à época em combate. Mas em dois momentos impactantes da tua vida, com noites mal dormidas e sugestionada por acontecimentos fortes como o 11 de Setembro, provaste a sensação psicológica de modo muito realista de mergulho num cenário de guerra. Uma vez no próprio 11 de Setembro, quando te viste sombreada pela barriga de um bombardeiro nas Devesas. Depois, anos mais tarde, quando caminhaste ao amanhecer pela Avenida da Boavista, por segundos apinhada de carros de transporte de militares e ambulâncias do exército. Imagens realistas a animarem (não gostas de dramatizar usando a palavra atormentar) uma alma mal dormida. Foram dois momentos fugazes que marcaram. Como vês isto à distância? De forma muito próxima da que vias à época: por favor, dêem-me uma pastilha e tirem-me deste filme, sei perfeitamente não estar bem. Assim pensavas de modo difuso à época e assim pensas de forma mais pragmática hoje, bem longe desses momentos visuais fortes e fugazes do passado. Hoje tudo se passa apenas no plano das ideias, estando até ver o plano sensorial sob controlo. À distância há talvez a diferença de colocares a hipótese remota de nisto haver uma espécie de premonição. Ou seja, compreendendo o factor sugestão ou excesso de sensibilidade e a raiz na doença, não escamoteias a hipótese de haver uma explicação extra-sensorial para essa tal sensibilidade especial ao tema guerra. Mas não a sabes justificar.


E agora os lados. Como é sabido quando há guerra ou na antecâmara da dita, é necessário definir posições. Como és pueril vais recorrer novamente à imagem dos jogos de infância, quando não aceitavas que houvesse quem não se definisse, preferindo a neutralidade, que associas sempre às uvas americanas. Mas isto nada tem a ver com os Estados Unidos ou os seus habitantes. Apenas diz respeito à resposta que tanto te intrigou (não estás certa se à época te irritou) que duas outras crianças (mais velhas) te deram enquanto comiam descontraidamente uvas americanas no momento em que duas equipas se digladiavam: nós estamos neutros. A Suíça da ocasião. Depois de recuar à infância, retrocedes 30 e tal anos anos para voltares a lembrar que na tua adolescência dos anos 80 não tinhas a menor paciência para comunistas e o seu oportunismo e aproveitas para dar uma pincelada no cômputo geral dos últimos 50 anos para dizer que não comungavas da mentalidade de esquerda preponderante em Portugal. E por fim recuas apenas um par de anos para contares que disseste a alguém muito próximo que entre a extrema-esquerda e a extrema-direita tendias, apesar de tudo, para a aceitar melhor a primeira. Vais agora tentar contextualizar e explicar que daqui não advém nenhuma complacência com regimes autoritários, anti-democráticos e desrespeitadores dos direitos humanos, mas antes uma postura pragmática de busca de equilíbrio, de quem reconhece à esquerda um papel de contrapeso dentro de Portugal num futuro próximo que se prevê tender para a direita e a extrema-direita – poderás é estar a enfermar do erro de aceitá-lo cedo demais legitimando agora um peso ainda excessivo e não um verdadeiro contrapeso.


Como vais desenvencilhar este nó que até hoje não desenleaste é um mistério para deixar para próximos postais, cujo teor desconheces tanto quanto desconhecias as linhas precedentes. O que estás a tentar fazer é pensar em voz alta e em público para ver se te entendes a ti própria e ao mundo. Quem se predispuser a ler terá que ter muita paciência e uma coisa é certa: não encontrará referências múltiplas a obras e autores consagrados – quanto mais não seja por os desconheceres -, não verá definições de conceitos de ciência política, nem se deparará com elencos históricos. Para isso existe gente que estuda e sabe, é uma questão de os ler. Nas Comezinhas há sim sensações, com a particularidade de pontualmente poderem ser representativas da forma de sentir a realidade do comum mortal, tão só - há quem lhe chame ignorância.


Agora são horas de dormir sob pena de amanhã não teres rendimento normal no trabalho, que é o que te dá o sustento, logo o primordial. Escreverás o resto amanhã ou nos próximos dias. Esperas conseguir chegar a alguma conclusão.


(há-de continuar)