
Enquanto faço um compasso de espera pelo desenvolvimento do filhote Tulipa, mostro a Japoneira. Em Fevereiro os botões das camélias tentavam abrir e apodreciam, todavia em Março, depois de lhes ter arrancado os botões podres, estão a safar-se um bocadinho melhor. Veremos como aguentam estas chuvas da última semana.

Entretanto comprei finalmente o adubo líquido - vou experimentar pela primeira vez.
Amanhã, depois de mais de um ano afastada dessas andanças, vou visitar o interior de uma moradia aqui na zona. O tempo não está para trocas imobiliárias, mas o certo é que acompanho (com visitas pontuais à rua) a construção das três moradias em causa desde início (há quatro anos) e são uma tentação. O sonho de uma casinha com jardim ainda não morreu, apesar de adormecer por temporadas com as considerações do costume: ah e tal, um apartamento é muito mais prático e menos dispendioso, com despesas comuns repartidas, e no dia em que tiver uma casa vou andar exausta a subir e (pior) descer escadas e com mais trabalho, além de deixar o jardinzito ao abandono.

Esta que vou ver tem três pisos e apenas um pátiozito de 23m2 nas traseiras, mas seria o suficiente para transplantar a Nespereira e a Japoneira – é certo que não dá para duas tílias (sorrindo), mas para megalómana sonhadora até sou uma rapariga razoavelmente resignada. Pancas. Gosto de sonhar à distância, dando lanço à vida, deixando-a correr à frente para a apanhar num sprint mais adiante - ai os estrangeirismos, heresia, senhores, heresia. E assim vou construindo uma boa vida quando vista em retrospectiva nos dias sim, uma péssima vida, nos dias azedos, graças a Deus bastante menos.
Conhecendo-me a obstinação quase adivinho que mais tarde ou mais cedo (tarde, quase sempre tarde) terei a dita casinha dos meus sonhos (um pouco ao lado deles, como é sempre a vida concretizada), e que esta que vou ver amanhã é apenas mais uma das que vou visitando de anos a anos. Assim alimento a vida e os sonhos. Devagarinho. No entremeio oiço pela 24ª vez (talvez seja exagero de sagitariana) o concerto de Bruce Springsteen e cá fica a Japoneira no vaso da varanda, antes de ter jardim onde crescer.
Quantas plantas de casa terei desenhado mal ao som de Bruce Springsteen, quantas vidas sonhei dentro dessas plantas? É vida, também é vida. Quantas vidas? Não há tempo útil nem realidade que nos permita vivê-las todas senão nesta batota boa. Batota fura-frustrações. Não vale a pena zangarem-se e insurgirem-se com esta pequena trapaça que todos fazemos. Cada um à sua maneira, com as suas pancas mais ou menos dissimuladas e com maior o menor intensidade, por mais convencido esteja de ser um resolvidíssimo(a) homem ou mulher de acção e não uma alma dada a devaneios.
Não sei se já vos disse, mas gosto mesmo de ouvir Springsteen, traz-me uma energia boa. Dá-me nervo. Nervo até para continuar a expor sonhos pessoalíssimos, que é costume gente decente guardar no recato da intimidade por medo de ser considerada narcisa e estranha, por medo da inveja e desprezo alheio e por gosto mais do que legítimo de reservar o castelo do essencial na vida para os mais queridos e próximos, apesar de não raro exibir opiniões sobre vida alheia.
Ah, caramba. Enganei-me, hoje era dia de fazer um inteligente post sobre o 11 de Março de 1975. Sempre um tiro ao lado, bolas.
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Adenda. Fui ver a casa e gostei muito. Contudo o pátio tem apenas 10m2. Excepcionalmente, joguei o euromilhões para a próxima terça-feira, pode ser que nos saia um prémio para a podermos comprar.