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17/03/2023

Recapitulando




Mais uma mexerufada da ideias


por Isabel Paulos, em 10.08.22

 




A má sensação de ontem, após colocar os vídeos que exibem os efeitos da exposição excessiva ao mundo online e redes sociais em particular, esboroou-se em cerca de meia hora. Vale a serenidade de quem já se habituou a colocar em perspectiva todas as conclusões dos estudos científicos e descobertas da verdade a cada momento. Não é que desconheça a adicção ao mundo virtual nem que não constate o descontrolo com que muitos de nós nele vivemos. Muito menos me é estranha a busca de gratificação com a exibição da vida pessoal ou a diminuição das capacidades de concentração e memória. Tudo isto é um adquirido que só me envergonha por uns minutos. Todos nós sabemos o que é o vício em geral e muitos temos luzes do que se passa no cérebro por acção dele. Todos conhecemos uma ou várias pessoas que em conversa cara a cara fala em catadupa de si próprio – alguns homens adoram acusar as mulheres de o fazer. Todos reparamos no alheamento dos que vivem mergulhados no seu mundo e as dificuldades que têm em ser mais pragmáticos. A consciência dos nossos erros ou vícios não é, ao contrário do que muitos entusiastas proclamam, o ponto de partida para mudar de vida. Vamos com calma. O mundo mudou e nós com ele. Temos em perspectiva, por exemplo, as teorias sobre os efeitos nefastos da televisão sobre a visão e moral das crianças e as mais do que muitas teses sobre os alimentos que fazem bem e mal e todas as modas associadas. Por que razão me vergonho de me gratificar ao contar o dia no blogue, se a gratificação através do exercício físico é entusiasticamente aconselhada e nunca menosprezada? É certo que posso cair no ridículo, além de maçar os outros. Têm bom remédio. Não leiam. Por isso não o fazemos tanto no mundo físico, os outros mostrariam o desagrado e retrairíamo-nos. (sobre o individualismo falarei mais adiante.) Por que razão me penalizo por ter falta de concentração e memória? A segunda falta-me desde criança, quando ainda não tinha contribuído voluntariamente para a formação do carácter, a primeira sei que resulta também da falta da disciplina e sim, dos vícios da nossa época, mas será que me foi dado tempo para me poder concentrar? O gozo com as queixas de muitas mulheres é muito, mas será que haverá a real noção das preocupações que as ocupam: pessoais, afectivas, familiares, domésticas, profissionais, sociais e intelectuais? Não tenho dúvida que muitas de nós se queixa mais do que devia e faz muita mais ronha do que dá a entender com espavento aparente, mas por cada uma que “dá o ar” e assim se torna bem sucedida quantas fuçam de facto, em esforço e com mérito, sem grandes recompensas? Também é certo que a vida é feita de fases e nas mais sossegadas poder-se-ia aproveitar melhor o tempo, mas será que muitas de nós não precisam de descansar dos embates dos tempos conturbados? Enfim, o que quero dizer é: com trinta mil preocupações, nomeadamente, com os outros, que tempo temos para nos concentrar e trabalhar a memória?


Sobre o individualismo queria dizer que no ano passado um amigo me fez chegar um estudo da área das neurociências que se debruçava sobre as diferenças nos cérebros orientais e ocidentais. A questão colocada era a da cultura influenciar o próprio desenvolvimento de zonas neurológicas - desculpem e simplificação, mas não estou para ler novamente o estudo e usar os termos técnicos. Os orientais (creio que os indivíduos estudados eram chineses e japoneses, mas não estou certa) valorizariam mais o colectivo, a família e relações sociais. Os ocidentais (do norte da Europa e norte-americanos, creio) o individualismo, eles próprios. Os orientais o geral. Os ocidentais o particular, o pormenor. Tudo isto se vê biologicamente, digamos assim, no próprio cérebro. Nas diferentes zonas neurológicas activadas por estímulos diferentes. Perceber as diferenças nas funções cognitivas e afectivas entre ocidentais e orientais é um bom princípio de entendimento do mundo onde vivemos.


Também queria deixar nota da leveza dos últimos dias. Se bem que os astros e o bom senso me aconselhem a não embandeirar em arco e a festejar antes do tempo, não me consigo conter e contar que nos últimos dias me deparei com uma série de pequenos acontecimentos e gestos que me deixaram contente. A animação a quatro nas últimas semanas com o combinar de reunião de amigos da adolescência (de que já falei). O nascimento do bebé da colega de trabalho com quem dividi a sala durante 14 anos, um momento de extrema felicidade para ela e marido, por além de tudo ser desejadíssimo há muitos anos. Os telefonemas da amiga com quem dividi durante dois anos escritório de advocacia e com quem troco há anos mensagens no Natal, nunca se concretizando os almoços que prometemos. Com mais 14 anos do que eu, e um feitio franco e aberto, deu-me há quase 20 anos um dos melhores conselhos que tenho memória. Finalmente vamos almoçar. O telefonema de um amigo a relatar contente novidades profissionais, que me deixam felicíssima por ele e a acreditar que de quando em vez o valor é reconhecido. Uma série de conversas amenas em família e a vida profissional a correr bem. Depois há o mundo na internet, dos blogues, da escrita que também vai correndo bem. Não me devo gabar, mas é bom saborear os bons momentos. Sem medo de ao falar do contentamento atrair a infelicidade. É tudo.