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09/03/2023

Diário

É a bebericar um Anis Escarchado que escrevo mais este diário espontâneo. Bebida reabilitada na minha vida já depois da segunda take com o Nuno. Quando miúda em casa dos meus pais havia o Licor de Anis Marie Brizard. Recordo sempre de como nós miúdos lambíamos no fim e à socapa os pequenos cálices para aproveitar tudo – tal como fazíamos com o Vinho do Porto. Quando comprei a última, a mui jovem funcionária da caixa do Continente achou piada à garrafa, perguntando-me: traz uma flor? Nunca tinha visto. Referia-se ao ramo de anis natural que é colocado no interior das garrafas. Já aqui contei que a minha bebida preferida da juventude era Vodka (há por aí uma garrafa, mas há anos não toco), hoje proscrita por associação aos russos. Contaram-me há uns dias que alguém foi injuriado nas redes sociais por mostrar o bibelô das matrioskas em casa. Isto vai lindo e a confusão mental é grande. Não confundamos, gente, os russos com a corja que os governa, nem as matrioskas com os russos. De modo que Vodka limão era a minha bebida, mas agora alegro-me mais com doçuras.


Há pouco mais de uma hora estive a fazer a encomenda no Continente e pasmei. Também já aqui contei que o Nuno, resultado do traumatismo craniano do acidente de 2004, além da visão perdeu parte substancial da memória. Se a visão ficou para todo o sempre comprometida, da memória foi recuperando. E é curioso, como tantos anos depois, sinto progressos recentes. Nas últimas semanas, tem-se revelado em diversos episódios mostrando ter a memória de curto-prazo muito melhor. Antes de fechar a encomenda, como sempre fazemos, tentámos puxar pela cabeça para ver se faltava alguma coisa. Desta vez lembrou além dos infalíveis lenços de papel, que desta vez eram mesmo precisos atentas as viroses que nos atacaram nas últimas semanas, da lixívia que a dona L. me tinha pedido na segunda-feira e também do adubo líquido para as plantas, que há semanas me esqueço de mandar vir. Siderei. Até porque o Universo é caprichoso e deve achar que nesta casa é suficiente munir de memória uma pessoa de cada vez. Sim, já no final da encomenda tive um baque de presença e lembrei-me que tinha metido o dia de amanhã de férias. Pena durante o dia de hoje na empresa não me ter ocorrido tal evento, não tendo accionado a mensagem out of office. Apesar de já ter tratado disso remotamente, recordei-me também que não fiz uma tarefa inadiável que só pode ser realizada in loco e cedo, pelo que amanhã terei que lá ir à primeira hora. Enfim, que é uma palavra bonita (já dizia a outra: não conto a história por não saber se já a contei).


E material à séria para post, o que há? Pensei em fazer um textinho a gozar com as greves por tiques e aspecto de cada classe profissional que se tem manifestado nos últimos dias. Desde os professores, aos enfermeiros, passando por médicos e auxiliares dos lares de idosos. Pensei em magicar qualquer coisa com graça, mas não tive tempo nem nada que tivesse graça saiu espontâneo. Digo apenas: registei que os médicos a manifestarem-se, se comparados com os professores, são uns príncipes de afinação e decoro. Desculpem-me a possidoneira mas as figuras dos professores nas manifestações das greves envergonham o país e dizem muito do que somos. Como podem comprovar, não há aqui ponta de graça, apenas desgosto.


Entretanto enquanto fazia a encomenda ouvia o nosso Presidente da República em entrevista na RTP. Utilizou uma expressão no início para caracterizar a situação do Governo neste momento, mas esqueci. Compreendi de imediato que devia ser importante – um sound bite para marcar compasso na comunicação social e em consequência na opinião pública. Fundamental para marcar pontos na agenda mediática. Mas felizmente nunca serei capaz de me vergar à actualidade, fazendo número de mais um papagaio. O Universo brindou-me com oportuna falta de memória - como é sabido escreve certo por linhas tortas.