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05/03/2023

O complô

Socorro, os teus amigos querem educar-te. Pior, os teus amigos e conhecidos têm-te em boa conta e não te julgam totalmente ignorante. Quão enganados estão, caramba. Há muitos anos o M. fala-te em filosofia, do sistema de ensino e da educação dos miúdos com se fosses cúmplice e pudesses reter o que explana. Tal como o P. e a I. conhece as correntes literárias e sabe identificar os autores por correntes. Ontem conheceste a delicada C., que além da simpatia e a voz e maneira de falar bonitas consegue ler com expressão e vibra com boa música. A T., que nunca as estudou, conhece meandros das leis que te fazem pasmar. E quem diz leis, diz doenças, plantas, desportos. Sabes lá, ela mergulha no conhecimento do funcionamento de quase tudo. A R. plana num humor refinado de quem veio à superfície depois de mergulhar na leitura e sabe fazer doces de massa folhada, o que te deixa ainda mais impressionada. O C. chegou a montar armadilhas em casa: combinou com o primo deixar um livro exposto na sala com ar casual por saber que ias tropeçar nele e fazer um comentário. Como se o tivesses lido, céus. Não leste. É preciso que saibam. A B. fala contigo de leis e dos casos de advocacia como se ainda fosses a colega dela de há 20 anos e fizesses mais pequena ideia do que está a dizer. O J.A. recomenda-te leituras que se tivesses feito mais cedo talvez te conferissem aquela segurança de saber defender a tua propriedade mental. Ontem o P., que consegue dizer sempre o que não concordas de uma forma que te deixa a reflectir, queria-te emprestar um calhamaço. Nem te atreveste a perguntar o nome do autor ou matéria; apressaste-te a confessar que lês muito pouco e demoras meses a mastigar pequenos romances de lana-caprina quanto mais calhamaços.


É premente dizer que os admiras e te esforças por entendê-los, mas chega a ti quase népias. Parece um complô para tentar educar-te. Que agradeces enternecida, mas confessas um nada encolhida de vergonha disfarçada, orgulho e boa-disposição.