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11/03/2023

Recapitulando

Obrigada a quem ontem abriu o post abaixo. Não faço a mais pequena ideia de quem foi (mesmo). Se calhar fui eu. Mas gostei de reler. Por falar em Almada, estava para lá passar este fim-de-semana, mas adiei por causa da greve da CP. E entretanto já fui a Amesterdão, por isso nem tudo está perdido.


*


Vaivém


por Isabel Paulos, em 22.10.21

 

Aí vou novamente a Almada. Há uns anos nos delírios de mudança de casa e de vida, ponderei ir viver para o Centro (era mais fácil) - cheguei a ver casas na Figueira da Foz - bom, mas onde é que ainda não vi casas? Inconsequente, és uma inconsequente. Às vezes divertia-me e ia até Dublin. Hipótese por hipótese também valem as fora de causa. Encanta-me a Irlanda, que não conheço. Claro que tenho o estereótipo: verdes, bares e escrita. Parece-me um bom programa de vida - soa a anedota: não vou a um bar há anos. Mais do que a Holanda (que também não conheço: como é possível?), cuja visita já adiei duas ou três vezes - cada vez mais encafuada em casa. Hoje uma percentagem significativa da população portuguesa viaja - viva a ryanair e os fundos europeus. Ao percorrer o caminho trabalho paragem do autocarro dei com três rapazes novos a conversar, um deles a dizer que tendo estado três vezes em Amesterdão e tal e coisa os holandeses e o hábito de ter duas e três bicicletas. Na idade dele também tinha tempo e meios para viajar. Tinha alegria na voz, o rapaz - ontem senti a minha voz sumida no elevador ao responder a um simpático cumprimento de outro passante, detesto quando fico com a voz sumida, à saída fiz um esforço e consegui uma razoável alegria e simpatia na voz, detesto fazer a figura de mono que vejo a muitos estafermos, uns por natureza outros por má educação. O das bicicletas estava contente por contar aos amigos as suas peripécias. O tempo passa. Não volta, nem podia. Ou não passa. O Tempo, o tempo não passa. Tudo é relação e o tempo só existe em relação. Falei com uma antiga colega de trabalho de quem tenho saudade, confirmamos que estamos vivas e nos recomendamos, e rimos com a nossa conversa piegas. Um amigo mandou-me alfinetadas ao benfica, e ri-me, como de costume. Outro amigo mandou-me mensagens sobre um livro que anda a ler acerca de Nietzsche - porque será que quase desde criança tenho um amigo ou amiga que lê Nietzsche? -, um dia ainda perco a cabeça e leio qualquer coisa além de trechos ou páginas soltas (ah, vergonha das vergonhas, com acesso em casa a vários, nunca lhe leste a obra?) -, a aversão à Democracia dele e de alguns filósofos gregos. Ai o Homem Novo, o Homem Novo, que de tão novo caí de podre. Recordou-me a adolescência, leituras e amizades improváveis. E, graças a Deus e ao juízo que nos resta, concordamos que quem tem razão é o bom do Churchill. De qualquer forma, é bom questionar, quem não questiona está estagnado na mediocridade e é bom ter amigos que pensam e me obrigam a puxar pela cabeça e não cair nesse engodo de vidas estúpidas e fúteis e é bom reconhecer o inimigo e os nossos demónios. E estou cansada e preciso dormir, mas amanhã lá vou. É a vida. A Figueira da Foz não é má terra, só embirro com aquele areal demasiado profundo. Conheci boa gente da Figueira. Curiosamente, há acasos assim, não conheço má gente de lá. Tive sorte, com certeza. Aliás, no computo geral tenho tido sorte com as pessoas que vou trazendo à minha vida ou que a cruzam, com honrosas excepções de confirmam a regra. Devemos tratar bem os estupores que perpassam as nossas vidas, desejar que tenham grande fortuna e sucesso, prémios e medalhas é a forma certa de se fazer justiça - és tão retorcida, rapariga. Cancelei o único jantar com amigos que tinha marcado em muito tempo - amigos de sempre, daqueles que não é preciso desenhar o mapa do que pensamos ou sentimos, porque eles vão adivinhando o caminho. Com certeza haverá outra oportunidade mais tarde - não muito mais tarde, senão crio-a eu. E não, não concordo que só a tragédia produza arte. Isto a propósito de outras leituras online. Mas é verdade que o sofrimento ao rasgar a alma e as entranhas permite que se veja o melhor e o pior, aquilo que sempre escondemos por conveniência social ou emocional. Queremos muito dar o ar de bem sucedidos e tememos mostrar ao mundo as fraquezas - o lado reles, o lado odioso, as vergonhas. E sem vergonhas não há arte, mas bibelôs. Também estranho muito o uso e abuso da ideia ou palavra amor e do sofrimento por amor. É usada demasiadas vezes em vão. Confundida tantas vezes com vaidade, para nos engrandecer. Como se tivéssemos necessidade de provar que somos gente à séria, capazes de sofrer pela maior das razões. Quando escalpelizamos a coisa apenas para dar lustre ao nosso amor próprio. Grandes dramas, grandes enredos para nos imaginarmos muito amados, muito amantes. As voltas que damos para dar dimensão ao que não existe. Grandes histórias trágicas criadas em vão para glorificarem mais o amor próprio do que o outro, o dito, o real. O comezinho. O dos pequenos gestos, o das mãos abertas, o desavergonhado. Desavergonhado mas não ficcionado, não imitado, não artificial. Desconfio sempre de quem tem muita facilidade em falar de amor e paixão, conhecendo e trabalhando as palavras certas, burilando como se acreditasse, como se fosse verdade. O dito, o amor a sério, é do caralho (aqui hesitei entre passar adiante sem justificações ou explicar o uso de vernáculo: odeio o uso do palavrão para chocar ou fazer vista, mas há casos em que maneirar é desvirtuar o português e o pensamento). Ou é consolo, quase amor. O dito nem sempre se concretiza, mas também se concretiza. Dá prazer e também não dá. Dói, mas também não dói. Traz alegria ou não, mas também tristeza, dor. E passa, como tudo na vida. E volta outro ou o mesmo - ah, mas isso não é amor, dizem os aficcionados dos sentimentos puros e os devotos das convenções. Está bem, com queiram, o coelhinho foi com o pai Natal e o palhaço no comboio ao circo. Quanto mais vivo mais reparo que as grandes declarações de amor são desacompanhadas de coragem, de falta de vergonha, de verdade. Não há amor dissimulado, com vergonha do dito ou do ser amado. E o resto são tretas. Falando de artifício vou até à inteligência artificial e ao mundo medonho que nos espera e para que caminham as massas cândidas e excitadas com o novo amanhã, à espera de serem devoradas pelo Homem Novo. Para que tens a boca tão grande? Homem Novo. Mais um? ou o último dos Novos Homens? Mais um. E com isto fiz uma interrupção de uma hora no trabalho e tenho que voltar, não sem antes agradecer aos amigos e conhecidos que sem saber me deram rastilho para estas linhas tontas.


Reli e fiquei com ideia que tinha vida. O que é estranho, porque acho sempre que não tenho vida. Com jeito, um dia ainda descubro, sem querer, sem saber ler nem escrever, que sou mais feliz do que penso - ah, a palavra proibida. E é isso, vamos passar o fim-de-semana a Almada. E preciso dormir.