
Quem aponta o cume da pirâmide por lá viverá, mas a quem aponta o céu restará sempre a companhia e compreensão das estrelas, ainda se no chão tombado.
Passaste a vida a desejar o céu e a viver com a mais terrena das realidades. Toda a vida te foi estranho o cálculo e a sensação de olhar d’ alto. Nunca te atreveste a tutear o cimo e contar com obediência da base. Nunca tomaste o topo como a tua casa de pleno direito e nada te impediria de fazê-lo. Seria, aliás, o suposto, não fosse a tua natureza imperfeita e consciência dela. Bendita imperfeição, que te aproxima de gente com vidas desventuradas. Amizades que te recheiam os dias não de brilhos e certezas, mas de humanidade. A vida não é só viço, pensas tantas vezes. Acreditas na beleza do erro. Enternecem-te os tropeços do caminho e a luta pela sobrevivência. Sabes que grandes homens e grandes mulheres se escondem nas sombras e redemoinhos de vidas improváveis e esquecidas. Comoves-te ao encontrar num emigrante português - que, para se desfazer de dificuldades provocadas por más decisões do passado dá banho a velhos dementes ingleses, serve num restaurante indiano, ou faz entregas de comida -, um amigo que ora devaneia com o fulgor de Bonaparte, ora com as inquietações de Lobo Antunes ou delírios biográficos do tenor Enrico Caruso. Sentes orgulho em ter a companhia de amigos assim, com quem aprendes e te fazes melhor.
Talvez por isso, o discurso bem articulado e quadrado de quem desconhece os cambiantes dos verdadeiros cavalos-de-batalha não te emocione. São fáceis de identificar as proposições debitadas do alto do conforto material e mental. Dás por escritos bastante intelectualizados nos quais não sentes ponta de alma. Quantos discorrem nas ideias e nos argumentos como se a palavra não fosse mais do que um florete, desconhecendo o calafrio de esgrimas fulcrais e renascimentos sofridos após estocadas quase fatais. E já não é de retórica que falas por oposição ao discurso lacónico da acção, por teres aprendido que a vida é feita de dualidades e ambos podem ter cabimento na razão. É de conhecimento e humanidade. E de não confundir intelectualização com palavreado insensível.