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02/07/2025

O que chegou cá

(corrigido)


O que paira nesta mioleira? As breves leituras de ontem. Os diagnósticos estafados acerca da fragilidade da Europa. Sabido o ascendente norte-americano que resultou da ajuda após a Segunda Guerra Mundial. Devemos estar agradecidos pelo grau de conforto de vida dos cidadãos europeus nos últimos oitenta anos em paz e simpáticos regimes de segurança social? Ou já pagámos a factura com o nosso trabalho e cumplicidade? A construção de políticas e instituições nas quais assentou uma paz de décadas. A viragem dos 80/90, com a queda do muro de Berlim, dissolução da URSS e expansão posterior para leste dos princípios que regem a União Europeia e as democracias liberais. Interrompida em 2022 (em 2014) com a invasão russa da Ucrânia.


A constatação das invectivas que o Presidente dos Estados Unidos provoca até nos mais sóbrios. E as conclusões que não adiantam um (ai o que me ia sair não se imagina) átomo à resolução dos imbróglios transatlânticos. Sim, aquilo em Haia foi mais do que vergonhoso e humilhante. Fez lembrar os vexames a que estão sujeitos trabalhadores dependentes do salário para sobreviver em relações laborais abusivas, das quais muitos parecem ter saudades abstraindo do facto de ainda hoje subsistirem pelo mundo fora e também no nosso país. A Europa não tem meios militares de defesa próprios, é facto. A sugestão parece ser a que cedo se aprende nas relações profissionais hipócritas: dizer a tudo que sim e fazer o possível, mantendo o foco nos próprios interesses. Uma conclusão lida ontem: só o aprofundamento das políticas comuns – o federalismo – em matérias económicas e fiscais permitirá o necessário caminho para uma defesa comum.


Mais leituras? A conclusão pela degradação do Serviço Nacional de Saúde. O estudo e os números da contratação através de prestação de serviços, das horas-extraordinárias e o absentismo. As conclusões que nunca podem vir a público. Os interesses corporativos são um saco sem fundo de despesa (dinheirinho nosso, sim, esse mesmo) impedindo qualquer tentativa de racionalização da gestão dos recursos humanos e materiais. Considerações que valem também para o Ensino.


A imundice da publicidade dos abusos na intimidade exposta nos tribunais e jornais. Tudo quanto devia ser tratado com delicadeza e pudor é feito matéria de enxovalho e audiência. A exploração do obsceno, das misérias e perversidades humanas existe desde que o mundo é mundo. Prevalecerá sempre a atracção pela coscuvilhice da vida alheia e necessidade de satisfação dos instintos animalescos através do voyeurismo informativo e judicial convertido em tema jornalístico, literário, cinematográfico etc. a pretexto de se tratar de abordagem reflexiva da condição humana.


Por fim, ecos leves dos tempos áureos do jazz nos anos 20 ou o futurismo de Amadeo de Souza-Cardoso num qualquer ponto do país. Passaram cem anos e parece ontem, tão perto. O que me passa no pensamento? Como cada um de nós é feito de heranças ínfimas do imenso mundo. Tocado de diferentes modos pelo criado por quem cá passou antes. Cada pequena partícula da memória constrói um ser humano diferente. Como o passado nas diversas manifestações artísticas pode tocar hoje um jovem nascido nos anos 90 em Portalegre, ou um velho nascido nos anos 40 em Coimbra, em fraternidade ou adversidade em função do grau de abertura de espírito e consideração – do grau de educação - de ambas as partes.


Bom dia.